Imagens da Freguesia
História
Origens de Atouguia da Baleia
Sabe-se pelo estudo da ciência antropológica que muitos milénios antes da era Cristã já a Península Ibérica era habitada por povos de raças e origens diversas, e que estes povoadores se aglomeravam especialmente, formando povoados castrejos nos planaltos serranos, ou ainda com mais incidência junto dos grandes estuários, baías ou abras dos rios existentes ao longo da Costa Atlântica da Península Ibérica.

Como a sobrevivência desses povos dependia dos recursos naturais da época. Tais como; a caça, a pesca, e muitos frutos silvestres, então existentes.

Eis pois aqui, uma das muitas razões que os levavam, a assim procederem, procurando preferencialmente esses locais para sua habitação e sobrevivência.

Nesses estuários abundavam grandes e variadas quantidades de peixes e outros afins, da fauna marítima, tais como cetáceos de grandes proporções que ali recorriam para se alimentarem das espécies suas preferidas, o que muitas vezes lhes era fatal essa ousadia.

Nestas lagoas imensas de águas temperadas e semi-cálidas, também existiam em abundância muitas espécies de crustáceos e bivalves que ao tempo os habitantes de suas margens consumiam em grande quantidade para sua alimentação quotidiana, como se comprova pela existência fóssil dos muitos concheiras achados em locais que foram habitados por povos coevos dessas eras.

Além da fauna marítima tão propícia à sobrevivência dos nossos antepassados humanos também a luxuriante flora circundante os favorecia como coutada de caça onde abundavam imensas espécies de animais selvagens, (algumas de grande porte) tais como; o touro, o javali, o veado, etc; Além de muitas outras de menor tamanho; como a lebre, o coelho, e outras, de sua ordem.

Devido ao contínuo processo erosivo da crosta terrestre provocado pela pluviosidade enorme nessas eras, muitos sedimentos aluvionosos iam sendo colocados nas margens dessas lagoas, dando aso a que se formassem enormes sapais ao seu redor, criando autênticos paraísos de sobrevivência às aves migratórias que a eles recorriam para nidificar e se alimentarem da grande profusão de répteis e outras espécies necessárias à sua preservação.

Portanto, nestes estuários, lagoas e abras grandemente existentes na Costa Atlântica da Península Ibérica, não faltava alimentação natural, aos primitivos povoadores humanos, ai instalados.



Os Ibéros

Pela descrição que nos conta a História Universal, sabemos que a Península Ibérica foi habitada pelos Ibéros e depois invadida pelos Celtas que juntamente com outros povos (Suevos, Gregos, Cartagineses, etc.) se juntaram, formando os Celtiberos ocupando toda a Península, para cá dos Pirinéus.

Este povo Celtibero dividiu-se em vários grupos distintos com nomes diferentes e áreas demarcadas. Entre os cinco agrupamentos, um tinha o nome Lusitânia, que ocupava grande parte do território peninsular a oeste, entre os rios Douro e Tejo. Mais ou menos entre os meridianos 38-40, e os paralelos 8-10, como seja parte da actual costa Atlântica do litoral Português, mais concretamente entre os dois rios citados.

Esta parte da Ibéria era habitada pelos Lusitanos.


Os Lusitanos

Quando no ano de 193 antes da era cristã a Península Ibérica foi invadida pelas legiões Romanas, já encontraram todo o litoral Atlântico da Lusitânia povoado, principalmente junto aos portos e baias existentes na foz dos vários rios que desaguam nessa zona Atlântica.

Começando pela foz do rio Douro, encontramos muitos outros: tais como o Vouga; com o seu estuário de muitos portos de então: Ovar, Esterreja, Vagos, Mira ,etc. Depois Buarcos, na barra do Mondego, que era navegável até Coimbra, Montemor, Santa Olaia, Maiorca, Soure,Verride e outros. A seguir a foz do rio Liz, onde nesse tempo aparece um porto de nome Sardanaro ou Sardanero. Também no termo de Leiria, e junto à mesma foz, existiu o porto de Paredes, ao qual o rei D. Dinis, concedeu foral em 1282. Foi vila e porto de grande movimento comercial na idade média; o qual desapareceu soterrado pelo areal a partir do século XVI.

Ao sul da actual vila da Nazaré, onde hoje existe o porto artificial recentemente construído, havia no sítio do rio Alcobaça um pequeno golfo que dava acesso ao então porto da Pederneira, cujas cartas medievais assinalavam nesse ponto da costa como o "Gemo Petronero", ou "Golfo da Pedreneira".

A seguir existiam outros portos fluviais, tais como 5. Martinho, Alfeizeirão , e Salir. Depois Óbidos, com a sua lagoa, ainda hoje parte dela existente. Agora somos chegados ao porto de Atouguia, e é dele que pretendemos saber como era, e foi durante muitos séculos. Caminhando mais para o sul, existia ao tempo o porto da Lourinhã, que veio a desaparecer pelas mesmas causas, de todos os outros.



A Tauria

O porto de Tauria era o centro comercial por excelência, de toda esta orla marítima, entre a foz dos rios Douro e Tejo.

Começamos pelo Baleal, alcandorada num maciço de rocha calcária, tipo-lióz, que o contínuo movimento das ondas do mar provocado pela ventania nórtica, ao longo de muitos milénios de anos, desgastou entre a povoação que hoje existe, e as arribas do lado Nascente, também de igual calcário, dando assim ocasião à formação do baixio onde existia a praia de banhos. Varias épocas houve, que neste local da praia, só havia rocha, só vindo a possuir areia depois do assoreamento

Portanto, durante muitos Séculos, o Baleal era uma pequena ilha, junto à costa do lado Norte da entrada da Baía-porto de Atouguia, servindo de molhe de abrigo, à navegação que demandava este porto. A partir da ilha do Baleal, caminhando para Sudeste, formava-se um grande estuário-baía em forma triangular, que se prolongava até junto do velho Castelo de Atouguia, e tinha ai seu vértice; partindo depois, e alargando-se até junto do rochedo da actual praia da Consolação, que também abrigava pelo lado Sul da dita baía.

Com a grande ilha "Phenícies" (Peniche) a transformar pelo lado do Oeste toda a zona portuária, eis aqui a razão do seu valor e grandeza.

Foi esta enorme baía-lagoa-porto que desde os alvôres da navegação, utilizada pelos homens, servia de ancoradouro obrigatório a toda a marinhagem que se deslocava ao longo da costa Atlântica, fretando, pescando ou comercializando, seus produtos. 0 grande porto natural de Tauria era meta mais que obrigatória, para simplesmente se abrigarem, reabastecer ou comercializar os produtos transportados.

A então grande ilha de "Phenícies", como lhe chamou o cruzado cronista Observo em 1147, quando da conquista de Lisboa, era toda coberta por densa e luxuriante vegetação, com suas reentrâncias naturais facilitando abrigo em qualquer emergência ocasional provocada pelas incertezas traiçoeiras do mar. Todos os predicados dessa maravilhosa costa, eram favores da própria natureza, que o homem ávido de aventuras dela sabia tirar o devido proveito.



Tauria - O principal porto de pesca e comercial da Lusitânia

Devido há existência da "Insula Phenícies", a entrada da baía, como reserva natural criadora de variadissimas espécies piscícolas que ali desovavam e se protegiam de seus inimigos predadores, estes afluíam a estas paragens em grandes quantidades e por sua vez eram perseguidos por outros afins de maiores proporções como os grandes mamíferos cetáceos, baleias, cachalotes, roazes, etc. que à guisa de comedia se aventuravam a entrar no interior da enorme baia, que devido à sua irregularidade de fundos, os traía pagando com as suas vidas tais aventuras.

Era muito frequente serem caçados pelos homens , ou perdendo-se nos fundos baixios e traiçoeiros onde naufragavam por não lhes ser possível submergir para preservar sua existência. Com esta grande riqueza natural, que a baía-lagoa-porto de Tauria propiciava aos povos marítimos de todas as costas do Oceano Atlântico Norte, que muito frequentemente desciam a caminho do Mediterrâneo, e obrigatoriamente aqui se recolhiam para se refazerem dos muitos estragos causados pelas longas viagens feitas com tão exíguos recursos como os que então existiam.

Por experiência própria, sabemos como as gorduras sempre foram importantes e precisas não só para a nossa alimentação, mas também para delas se obterem óleos necessários para o fabrico de impermeáveis usados nas pinturas dos costados das frágeis embarcações que ao tempo existiam. Ancorados ou varados, ao abrigo nas muitas calas então existentes no interior da baía esses navegadores caçavam ou comercializavam, essas gorduras procedentes dos enormes cetáceos que aqui findavam. Derretida sua gordura e aproveitada sua carne, que conservada em salmoura e embarricada, os alimentava nas suas longas viagens através dos mares, nessa época ainda pouco conhecidos.



Porquê Touria ou Tauria?

Os muitos estuários lagoas e abras da Costa Atlântica eram cercados em grande parte por densas florestas ou matagais, com espécies de arbustos enormemente desenvolvidos devido ao seu crescimento natural ao longo dos séculos ou milénios da sua existência. As grandes orlas que circundavam a baía-porto de Tauria, não fugiam a essa regra ecológica natural, desses mesmos milénios passados. Por essa razão, natural seria haver, quer na "Insula Phenícies" quer ao redor do sapal da baía, uma abundante e densa florestação, a qual abrigava e dava guarida, a muitas e variadas espécies de animais e aves selvagens.

Entre as espécies de animais selvagens de maior porte abundava o touro selvagem, não feroz como o homem o transformou nos dias de hoje, mas sim, simplesmente bravo, que os navegantes que frequentavam estas paragens juntamente com as populações nativas caçavam em muita abundância para seu sustento. Devido a este facto, não custa muito imaginarmos de onde proveio o toponímio Touria ou Tauria, do latim arcaico, que mais tarde vai ser Tauria, Atouguia e finalmente Atouguia da Baleia.



O maior porto comercial da Lusitânia

Com a derrocada do Império Romano, cerca do V século da nossa era, para recebermos, na Península Ibérica, a invasão sarracena no ano 711 da era cristã, ocupando-a totalmente no princípio, vindo depois a desocupar grande parte dela. A Lusitânia fica debaixo do domínio Mouro durante alguns séculos. Na parte que nos tocou a nós, lusitanos-atouguienses, não nos afectou muito essa ocupação, quer dos Romanos quer dos Árabes.

Embora fizéssemos parte da Lusitânia pela nossa implantação geográfica, na Península Ibérica a ocidente da Costa Atlântica, onde existia um pequeno arquipélago de ilhotas (Berlenga, Farelhões e Peniche) junto à costa. Aqui situava-se a melhor baía-lagoa-porto de toda a Lusitânia, no espaço da costa marítima compreendida entre a Foz do Rio Douro, e do Tejo, onde todo o tráfego marítimo costeiro e não só, obrigatoriamente fazia escala, quer para se abrigar, reabastecer, etc, ou então comercializar seus produtos e mercadorias com outros seus congéneres.

Devido ao predomínio dos Romanos e dos Mouros ter sido maior à volta do Mediterrâneo nunca a Costa Oceânica ocidental da Península Ibérica foi muito utilizada pela sua navegação, mas sim em grande profusão o foi pelos marinheiros dos povos do Norte da Europa, principalmente Escandinavos e Normandos que frequentemente desciam de Norte para Sul, transportando seu pescado salgado, recebendo em troca, sal, vinho, frutas secas ,etc. Navegando até aos Algarves, chegando mesmo a Gibraltar e passando ao Mediterrâneo Central, algumas vezes. Em contrapartida à descida dos marinheiros Escandinavos e Normandos vindos do Norte da Europa, para comercializar ao Sul, também os Árabes subiam costa-acima ao encontro dos seus iguais, afim de permutarem suas mercadorias. Aliás, sabe-se que durante o século x, o califa Hacam II mandou construir barcos segundo o modelo dos Normandos para os atacar com eles.

Como aqui se deixa transparecer nem sempre as marés eram de rosas, existindo em ambas as partes muita pirataria que sempre se degladiavam mutuamente sempre que a ocasião lhes era propicia.



O alvorecer de Portugal

Estamos no alvorecer da nação Portuguesa. D Afonso Henriques, desce de Norte para Sul, conquistando tudo quanto é castelo de mouro. Já conquistou Leiria, Porto de Nós e Santarém. Óbidos entregou-se sem luta. Falta-lhe agora o castelo mais forte e ambicionado, a cidade de Lisboa.

Ele quer sacudir a moirana para lá do Tejo, mas não dispõe de forças para o fazer, porque a praça de Lisboa é a mais difícil de conquistar, devido a junção aqui concentrada das muitas guarnições de outros castelos já tomados por D. Afonso Henriques. Eis que uma armada de cruzados formada por povos vindos da Gália, navega ao longo da Península Ibérica ,descendo o Oceano Atlântico de Norte para Sul com destino a terra santa, onde pretende apoderar-se do túmulo de Cristo, há muito tempo na posse dos infiéis. Essa armada e comandada pelos irmãos gauleses, Guilherme e Roberto de Licorne ou Corni, que aportaram a barra do Douro para se reabastecer e abrigar. Permaneceram aí o tempo suficiente para o fazerem.

Ao ter conhecimento desta estadia dos cruzados no rio Douro, o Rei D. Afonso Henriques encarrega o Bispo do Porto, D. Pedro, de negociar com eles a sua participação na conquista de Lisboa. Não foi bem sucedido o Bispo em suas negociações com os cruzados; e estes partiram a caminho do seu destino, a terra santa. Dias depois atracaram na grande baia de Tauria, onde novamente se refazem de suas necessidades vitais, para continuarem sua missão. Então, D. Afonso Henriques, que se encontrava cá pelas bandas de Lisboa, chega ele à fala com os manos franceses, e concerta a sua ajuda valiosa na conquista de Lisboa em 1147.

Não foi fácil, ao nosso primeiro rei, negociar com os franceses a sua participação nessa tão arriscada empresa, que iria decidir a cimentação da nacionalidade portuguesa, perante a história das nações, em tempos tão controversos. Sabendo-se que os cruzados se encaminhavam navegando para a Palestina, pensamos como seria difícil chegar ao acordo destes se disporem a lutar a menos de um terço da viagem do seu fim em vista, que era chegar a terra santa. O rei D. Afonso Henriques também não dispunha de meios para lhes pagar o seu auxilio tão valioso. Só lhe restou fazer o que fez; doar-lhes as terras de Tauria, o senhorio do seu importante porto, e do seu frutuoso comércio.

Na cedência desta importante zona da Lusitânia aos gauleses, impôs o nosso primeiro rei, a obrigação de a repovoarem e defenderem convenientemente, como cidadãos lusos que passavam de hora-avante a ser, ficando a dever fidelidade ao seu rei D. Afonso Henriques.

Desta vez a conquista de Lisboa foi um êxito, pois sabemos que a mesma tinha sido tentada trinta anos antes, não pelo rei D. Afonso Henriques, mas sim por grande parte da população lusitana que nela habitava, ao tempo muito numerosa. Tentaram assim obter a sua independência ajudados também por uma armada de cruzados que em 1109 se encaminhava para a terra santa, segundo conta a saga do rei Sigur. Esta armada como tantas outras, obrigatoriamente fez também escala no porto de Tauria. Nada se sabe, se depois da conquista de Lisboa a armada de cruzados seguiu o seu rumo para a Palestina, ou se retornou logo para as suas terras de Atouguia. Julgamos que sim, que já não continuou a sua primitiva missão, mas imediatamente se instalou nas suas futuras terras, povoando-as intensamente, com outros povos francos que foram influenciados por seus irmãos a juntarem-se nestas férteis paragens afim delas tirarem todo o proveito de sua subsistência e grandeza.

Em pouco tempo, estas terras tomaram uma nova feição, quer em desenvolvimento de ordem material e comercial, quer em cultura e arte espiritual. No ano de 1165 já as terras de Atouguia se encontravam repovoadas pelos seus donatários gauleses. O Rei D. Afonso Henriques, concedeu o primeiro foral às terras de Tauria, dando aos irmãos gauleses autorização para o efectuar, segundo certas normas por ele impostas. Mesmo assim sendo, este foral ficou muito favorável aos povos de Tauria.



Repovoamento e desenvolvimento do Porto de Tauria

São os povos de origem Franco-gaulesa que muito vão ajudar a consolidar a formação da nação portuguesa nos primeiros reinados da dinastia afonsina, quer povoando e desenvolvendo a agricultura, quer pescando e comercializando, através do belo porto de mar, então existente. Pelos seus bons serviços prestados em prol da nação Lusa, outras doações lhe foram concedidas, tais como Lourinhã e seus terrenos. Foi rápido e intenso o desenvolvimento em todas as actividades inerentes a estas comunidades instaladas aqui nesta zona da Lusitânia, que depressa se fundiram num só povo que ao longo de oito séculos ainda perdura. O mesmo já não podemos dizer em relação às benfeitorias por eles criadas, pouco restando do seu belíssimo porto de mar.

Quanto a monumentos existe a grandiosa catedral de S. Leonardo, que só por si diz bem da intensa e avultada fé desse povo cristão, que tanto amava e venerava seus santos protectores. Também possuímos a linda capela Real de Nossa Senhora da Conceição, de estilo barroco maneirista, obra do grande arquitecto-escultor João Antunes. Perto desta a linda fonte do mesmo nome, de estilo gótico, brasonada com as armas da vila. No largo fronteiriço à igreja, existem algumas trincheiras em pedra, igual à da igreja, que se presume teriam sido colocadas para delimitar a área reservada ao culto religioso praticado pelos muitos romeiros que se deslocavam à vila de Atouguia a rogar a protecção de Nossa Senhora. Como a capela não é muito grande, eis a razão de se praticar a maior parte das cerimónias ao ar livre. A cruz que se encontra, em frente da igreja, foi ali colocada recentemente. A mesma se encontrava, desde a sua construção, no caminho que então conduzia à Lourinhã; passando depois a chamar-se Caminho da Cruz Hoje, actual Casal da Cruz. Esta encontrava-se situada a cerca de cem metros ao sul da igreja de Nossa Senhora e foi lá colocada quando da sua construção nos anos de 1694 a 1699. Quanto às ruínas do velhinho castelo, hoje existentes e muito desprezadas, só me resta dizer que ele foi a atalaia durante séculos desse grande empório que era o então porto de Tauria.

Os Senhores donos deste grande porto de mar, residiam num magnífico palácio situado a nascente do terminal do porto, local ainda hoje denominado de Torre Bela. Suas ruínas existiram até ao primeiro quartel deste século, data em que os seus proprietários de então resolveram demolir estas velhas paredes para aproveitar a pedra com destino à construção de novas obras. Este palácio comunicava com o velho castelo, por uma galeria subterrânea que passava através do porto a grande profundidade, escavada nos calcários amargosos do fundo deste. Quando se construiu a actual moradia existente no terreiro das ruínas do velho castelo, foi por esta tapada uma escadaria em caracol que se diria dar acesso a tal galeria. Outras ruínas de paredes ainda se podem observar atrás da igreja de S. Leonardo, na rampa junto à fonte do mesmo nome, que se presumem tenham sido aí as instalações alfandegárias da época. Só se procedendo a escavações, se podem tirar conclusões concretas.

A velha fonte de S. Leonardo, que sempre acompanhou, e deu de beber aos mais primitivos povos, que por estas bandas se demandaram buscando seus proveitos; encontra-se hoje praticamente abandonada. Possui cerca de seis metros de profundidade, mas ao tempo em que se laborava no porto, esta se mantinha ao mesmo nível deste. Com o assoreamento do vale, a mesma foi subindo suas paredes até chegar aos dias de hoje, como se encontra actualmente. No fundo da fonte, e do lado da igreja nasce a água por um buraco semi-circular, pois deve ter sido esse o seu princípio em tempos muito remotos, que deu água a tantas gerações. Soterrado um pouco abaixo do nível do actual piso, existe um brazão da Vila de Atouguia, que só tem um touro com um castelo em cada corno, diferente daquele que lá se encontra a descoberto possuindo dois touros, bebendo em uma pia.



Porquê, S. Leonardo

De estilo romano-gótico erigida durante o século XIII, em honra de S. Leonardo de Noblat. Este era oriundo da nobreza gaulesa, e parente do rei Clóvis, que também era seu padrinho de baptismo. Estamos no século V, o rei Clóvis não professa a religião cristã, mas sua mulher consegue convertê-lo a baptizar-se juntamente com outros fidalgos da sua estirpe. São Leonardo, não quer ser guerreiro, dedica-se às obras de piedade protegendo os pobres e os prisioneiros de guerra, passando a ser seu principal protector. Depois da sua morte, o povo considerou-o santo, venerando sua imagem, como protecção nos apuros da sua existência. Principalmente os prisioneiros, e as mulheres grávidas que à sua memória recorriam, implorando sua intercepção junto do Céu.

Conta a tradição, que ao tempo do repovoamento das terras de Tauria, um barco que se dirigia para cá com um carregamento de prisioneiros se afundou à entrada do porto, salvando-se todos os presos. Estes traziam a bordo, uma imagem de S. Leonardo que também se salvou com eles. Agradecidos de tão grande milagre, resolveram construir a linda igreja, que hoje muito nos orgulhamos de possuir. Sabemos que em Portugal, é a única dedicada a S. Leonardo, não existindo mais nenhuma paróquia com este nome. Sua festa, é a 6 de Novembro, assim como era e é ainda hoje, o dia da Vila de Atouguia e paróquia de S. Leonardo. Presume-se que o templo foi construído no local onde existia uma mesquita muçulmana, pois quando do recente restauro levado a efeito pelos monumentos nacionais assim deixou transparecer.

Quanto aos donatários Franco-Gauleses rapidamente se fundiram com os povos nativos já cá existentes, ficando até hoje os apelidos de Francos e Correias. Nos finais do século XIII, já não existia descendência directa dos irmãos gauleses, passando o padroado de Atouguia, para a posse da Coroa Portuguesa.



Os Primeiros forais

D. Afonso Henriques, doou a povoação de Tauria e suas terras limítrofes aos irmãos gauleses, em 1147; também no ano seguinte 1148, concedeu-lhe o seu primeiro foral. Devido ao êxito alcançado pelos irmãos Licorni, no povoamento e progresso significativo de suas terras, D. Sancho I, confirma o foral dado por seu pai e concede-lhe novo foral. Novamente, D. Afonso II, renova este em 1218. Nos reinados de D. Sancho II e D. Afonso III, pouco ou nada se sabe de significante, sobre Atouguia. Apenas a continuidade laboral dos então Franco-Lusos já muito irmanados e familiarizados como futuros Atouguienses.

Quando D. Dinis ascendeu ao trono de Portugal, já possuía muitas casas em Atouguia. No ano de 1313, obtém o senhorio da vila, para em seguida a doar a sua esposa, a rainha D. Isabel de Aragão. Depois mais tarde, Rainha Santa Isabel de Portugal.

Durante o reinado de D. Dinis, a Vila de Atouguia, como tantas outras vai receber uma nova e grande dinamização e progresso em todas as áreas da sua civilidade temporal e religiosa. No local mais elevado das terras que circundam a povoação, denominada de Outeiro e junto ao caminho que ligava com a povoação da Lourinhã, manda erguer uma forca. Este local ainda hoje se chama Outeiro da Forca. Com esta medida tão significativa, ele passa a poder aplicar sua autoridade e justiça. Como nesse tempo, os corpos dos enforcados, ficavam expostos na forca até caírem de podres, os locais onde eram implantadas as mesmas ficavam distantes das povoações e a sul destas, devido aos ventos predominarem do norte, a maior parte do ano. Também eram as mesmas colocadas junto das estradas de maior circulação, para que todos os viandantes que por ali passassem, lhe servisse de exemplo

Como a corte de D. Dinis habitava muitas vezes temporariamente em Alenquer, deslocava-se a miúdo às suas terras e porto de Atouguia. Então manda construir, na parte mais alta de seus domínios por estas bandas, no local da serra a sua moradia solarenga, hoje chamado de Paço da Serra de El-Rei. Esta mansão foi construída no estilo então usado; o gótico medieval. Mais tarde a mesma sofre modificações, como hoje se pode comprovar. Nesse Paço de Serra, habitarão depois (embora temporariamente) todas as personalidades ligadas à história da velhinha Atouguia.

A Rainha Santa Isabel, como donatária das terras de Atouguia e de sua majestosa igreja desloca-se frequentemente para estas bandas habitando o Paço da Serra. Assim se comprova, segundo a lenda relativa ao baixo-relevo figurativo da natividade existente na igreja de S. Leonardo, que se encontra rachado ao meio, caso acontecido quando Santa Isabel em suas orações implorava à Virgem sua protecção em favor de seu neto, o futuro Rei D. Pedro I, então criança e possuidor de uma anomalia física que muito o traumatizava. Ainda, segundo a mesma lenda, suas preces foram atendidas e o seu neto foi aliviado de tamanho mal físico; uma quebradura (hérnia), humanamente incurável nessas épocas. O baixo-relevo, ficou frontal do altar-mór da igreja de S. Leonardo, oferecido a Santa Isabel, como prémio de reconhecimento a seu marido, o rei D. Dinis, que por este ter resolvido junto da Santa Sé o pleito referente às ordens religiosas que então se degladiavam. A oferta do baixo-relevo juntamente com uma imagem de Nossa Senhora em prata, foram oferecidas por poderosos franceses interessados nessa questão. A imagem encontra-se no Museu Machado de Castro em Coimbra.





O desenvolvimento de Atouguia e sua defesa

D. Dinis cognominizado de "O Lavrador", não só desenvolveu a agricultura nas terras de sua esposa, como também incrementou grandemente a pesca e o comércio marítimo e terrestre em Atouguia. Com a sua personalidade forte e culta, ele mexe com todas as actividades civis da época. Criando a nível nacional, feiras e mercados, dota a Atouguia com a sua feira anual no dia de seu orago S. Leonardo, que é a 6 de Novembro, e passou a ser o dia maior da então progressiva Vila de Atouguia.

Ele criou nestas paragens um mercado importante e permanente, devido ao desenvolvimento que imprimiu à industria pesqueira local. Foi durante o seu reinado que o porto de Atouguia alcançou a sua maior pujança piscatória, sendo então considerado o maior porto pesqueiro da Nação Portuguesa. A par da faina do mar, também aqui se desenvolveram outras actividades afins; como a industria naval, de reparações e fornecimento de apréstimos para os mesmos fins.

D. Dinis durante o seu reinado fundou em todo o seu reino 44 Vilas, incluindo a Vila de Atouguia. Nelas construiu e reparou os seus castelos. O Castelo de Atouguia já existia desde os primórdios do seu porto de mar, mas cremos que D. Dinis não passou sem lhe introduzir alguns melhoramentos e reparações. Nesse tempo a costa oceânica onde estava inserido o porto de Atouguia, era muito frequentada pelas piratarias Argelinas nomeadamente, e outras que se aventuravam a subir a baía para saquear a nossa população, pela calada da noite. Só o castelo, como sentinela permanente, lhes podia fazer frente combatendo-os e destruindo-os sempre que lhes era possível fazê-lo.

Pela história de Portugal, e por documentos existentes na Torre do Tombo, sabemos que D. Dinis em 1317 contratou o genovês Manuel Pessanha, a quem deu o posto de Almirante, para governar a sua marinha, e defender os seus postos da pirataria que ao tempo com muita frequência saqueavam e matavam os seus opositores. Também foi o rei D. Dinis, que por seu decreto criou a primeira marinha defensiva em Portugal, nomeando 30 indivíduos de Atouguia, com suas armas e bagagens, durante 6 semanas, para obrigatoriamente defenderem o seu porto.

O Almirante Manuel Pessanha passou muito tempo aqui com seus companheiros genoveses, pois a eles estava entregue a defesa de toda a costa portuguesa. Para esse fim eram recrutados muitos mancebos das povoações rurais que faziam falta na agricultura; por isso estes reclamavam ao seu rei que (quase sempre) os dispensava de tal obrigação.

Com a obtenção do senhorio da Vila de Atouguia, em 1313, 0 rei D. Dinis cria a câmara municipal da época, situada onde hoje se encontra a sede da junta de freguesia. Esta era composta de dois corpos directivos; os homens bons e a arraia miúda; que em colaboração com o seu rei, discutiam e decidiam interesses e formas de vivência local. A justiça punitiva era aplicada segundo os critérios do rei, depois de ouvidas todas as partes em litígio. O castigo máximo aplicado era muitas vezes o enforcamento, degola, ou a decepação total ou parcial, conforme o crime cometido pelo delinquente em questão.

Como símbolo da sua autoridade e da Vila, recentemente por si criada, mandou o rei D. Dinis colocar o primeiro pelourinho em frente da casa da câmara, e da igreja de S. Leonardo, mais ou menos onde hoje se encontra. Também a feira, por ele criada tinha ali a sua feitura, que perdurou lá, até aos princípios do século XVIII; passando então para o largo de Nossa Senhora da Conceição que tinha agora a sua igreja recentemente construída. O seu largo que antes da sua feitura, era parte cultivada, parte baldio e único caminho para a então Vila da Lourinhã é agora local de culto religioso a Nossa Senhora, nos meses de Verão, devido à grande afluência de romeiros vindos das mais longínquas povoações do nosso pais. As trincheiras de pedra calcária igual à da construção da igreja, foram ali colocadas por recomendação expressa da própria rainha Dona Maria Sofia, para evitar que os forasteiros invadissem a frente do templo com seus transportes e cavalgaduras. Nos buracos nelas existentes, eram colocadas varas de madeira, não deixando que o recinto fosse invadido pelos respectivos animais.

Quando em 19 de Maio de 1696, a rainha, seu marido e filhos, assim como toda a corte do reino de Portugal se deslocaram à Vila de Atouguia, para venerar a milagrosa Imagem de Nossa Senhora, ainda esta se encontrava instalada na sua primitiva capelinha do já abandonado hospital da Gafaria (implantado cerca de 50 metros a sul da actual igreja) reparou que a mesma, era frequentemente invadida por irracionais que nela penetravam. Assim deixou recomendado que no futuro templo, que já se encontrava em construção muito avançada, o mesmo não sucedesse.

Há poucos anos a esta parte, um filho desta terra um tanto irresponsavelmente, espalhou a alguns visitantes do nosso património histórico, que ali tinha existido um antigo touril, sem nunca ter investigado a razão porque o fazia. O autor desta resenha, durante a sua existência, nunca ouviu constar sobre tal veracidade. Nunca existiu touril em Atouguia, é pura ficção. Nenhum historiador do passado menciona tal facto; A não ser o Dr. Mariano Calado no seu livro "Peniche na História e na Lenda", influenciado pelo tal lunático filho desta terra.



A Rainha Santa e suas obras pias

A rainha santa Isabel várias vezes visitou e estagiou pelas suas terras de Atouguia, contactando suas gentes que muito queria e amava. Principalmente os pobres, doentes e desprotegidos de justiça. Sabemos quanto Santa Isabel se entregava à protecção da mãe de Jesus, e como no seu tempo defendeu seu culto, com a ajuda que prestou à instalação da Ordem Franciscana em todo o seu reino, principalmente em Alenquer e aqui em suas terras de Atouguia.

Pelo amor que dedicava aos pobres e doentes, não nos custa a acreditar, que foi no seu tempo, e pela sua generosidade, que se criou a Irmandade de Nossa Senhora da Gafaria, construindo a sua capela e respectivo Lazareto do mesmo nome. A capela existiu até ao ano de 1698, seis anos depois da data em que se deu o milagre da renovação da imagem de Nossa Senhora e do menino Jesus, no dia 19 de Maio do mesmo ano, conforme documentos comprovativos desse facto milagroso, ainda existentes.

Hoje nesse local encontra-se a majestosa igreja de Nossa Senhora da Conceição. Um pouco mais a sul, existia a dita Gafaria, onde centenas ou milhares de leprosos findavam seus padecimentos, incuráveis em tempos tão difíceis dessa época. Ao tempo do reinado de D. Dinis havia algum desentendimento entre o clero tradicional e a recente criada, Ordem Franciscana, que não era muito do agrado da igreja secular, tomando o rei e sua esposa, o partido da ordem mendicante, apoiando e protegendo a sua instalação sobre invocação do Espírito Santo a quem prestavam culto e adoração.

Criou-se mesmo no seu reino um culto especial ao Divino Espírito Santo, segundo nos descreve o insígue historiador Jaime Cortesão num dos seus livros de história. Essa atitude real não agradava aos priores tradicionais, devido a ser-lhes retirada autoridade e privilégios monetários que ao tempo auferiam com muita abundância. Como nesse tempo, os ensinos superiores eram em grande parte ministrados através das ordens religiosas, principalmente a de S. Francisco de Assis, que o poder real favorecia, levou a que na data de 12 de Novembro de 1288, o prior de S. Leonardo, juntamente com os priores de outras igrejas ao tempo importantes enviassem ao Papa Nicolau IV uma petição por eles assinada, para que lhes fosse concedida autorização para cobrarem rendas, cujo produto se destinaria a financiar e fomentar o ensino das ciências e artes, criando uma escola superior, sobre a protecção do clero secular.

Um ano depois, foram criados os estudos gerais em Lisboa, por ordem e decreto do rei D. Dinis. Segundo o que determinava o primeiro foral concedido por D. Afonso Henriques aos irmãos gauleses, todos os rendimentos e proveitos obtidos nas terras de Atouguia revertiam em favor dos seus naturais. Foi assim que o prior de S. Leonardo institui uma colegiada com o seu colégio de estudos superiores em Coimbra, junto às margens do rio Mondego. Ali estudavam os nobres filhos de Atouguia, durante muitos anos, até que um dia, uma grande cheia do rio Mondego destruiu o dito colégio, porque sua construção era feita de terra batida (adobe).



O reinado de D. Afonso IV

D. Dinis alimentava o banho de guerrear o reino de Marrocos na posse dos infiéis serracenos e assim agradar ao Papa e a todas as nações da cristandade. Para que tal fosse possível, necessitava de grandes preparativos e muitas reservas de alimentos adequados para esse fim. D. Dinis faleceu em 1325, não chegando a concretizar tal pensamento.

Com a subida ao trono de seu filho D. Afonso IV, parece que a ideia continuou fixa no seu sucessor. Este seu herdeiro, em Setembro de 1340 contrata com o mercador Afonso Domingues a cedência de todas as pescarias de baleia e seus afins, em todos os portos de seu reino desde o Algarve ao Ninho, para que este se comprometa a fornecer-lhe toda a carne necessária para alimentar essa grande empresa que muito almejava realizar, de guerrear os mouros em África. Para isso se comprometia o rei em lhe ceder todo o trigo e outros alimentos necessários, para suprir os seus operários e pescadores, utilizados nesse grande empreendimento.

Afonso Domingues, que tinha a alcunha de "Donzel" partiu para as terras de Atouguia, instalando na ilha de Peniche sua industria laboral, porque era este o local mais propicio para esse fim. Devido a factos conhecidos pela história de Portugal, D. Afonso IV, mantinha com seu filho primogénito o infante D. Pedro uma grande animosidade por este ser amantizado com D. Inês de Castro. D. Pedro, recebeu de sua avó, a Rainha Santa Isabel, o senhorio das terras de Atouguia, habitando com muita frequência o Paço da Serra e construindo um solar junto à povoação do Molêdo onde mantinha sua jovem amante.

Contam alguns historiadores que os seus três primeiros filhos de Dona Inês nasceram por aqui, quer no Paço da Serra, quer no Solar do Molêdo, hoje o lugar do Paço. Foram eles: D. Afonso, que faleceu de tenra idade, D. João, que nasceu cerca 1349 e D. Dinis, que nasceu no ano seguinte. D. Beatriz, a mais nova, já veio a nascer em Canidêlo ou Coimbra.

Diz a tradição, que o infante D. Pedro se encontrava temporariamente a caçar aqui nas suas terras de Atouguia, quando o seu pai, o rei D. Afonso IV, consentiu no assassínio de sua amante na data de 7 de Janeiro de 1355. Esta encontrava-se a residir com seus filhos numa quinta perto de Coimbra. O rei D. Afonso IV, faleceu no ano de 1357.



O reinado de D. Pedro I

Durante o curto reinado de D. Pedro I, (apenas dez anos) apenas se sabe que logo que subiu ao trono de Portugal, ofereceu a sua mãe a rainha D. Beatriz, as terras e Vila de Atouguia como presente de reconhecimento pela dedicação que esta sempre demonstrou para com ele, durante as discórdias travadas com o seu pai, o falecido rei D. Afonso IV. Também um facto muito conhecido que o rei D Pedro I, tinha grande predilecção pela caça, organizando grandes montarias muito em voga nas côrtes reais da Idade Média.

Como sabemos que as terras do senhorio de Atouguia eram ricas de fartas florestas de arborização muito densa e frondosa, nelas habitavam animais selvagens de grande porte, que o rei e seus amigos muito apreciavam caçar. Como a côrte de seu pai, D. Afonso IV, quase sempre residia em Coimbra, ao Infante D. Pedro convinha-lhe afastar-se para as suas terras de Atouguia, para ficar longe das intrigas de seus inimigos, para assim poder amar a sua querida Inês, no seu solar do Moledo, que para ela tinha mandado construir às escondidas de seu pai.

Nos dez anos de seu reinado pouco visitou os domínios de Atouguia agora pertença de sua mãe. O tempo que dispunha, era pouco para caçar, devido aos negócios do reino e ao rei tudo lhe era atribuído. Sabe-se que foi um rei itinerante, deslocando-se do Algarve ao Ninho frequentemente para administrar sua justiça.

O rei D. Pedro I, faleceu no dia 18 de Janeiro de 1367.



D. Fernando e Atouguia

Por morte de D. Pedro, sobe ao trono seu filho legítimo, o Rei D. Fernando, que por morte de sua avó a rainha viuva D. Beatriz, toma posse da Vila e Senhorio de Atouguia. Depois por carta de 12 de Julho de 1370 a doou a Aires Gomes da Silva com todos os direitos, rendas e foros, incluindo a pesca. Só a caça à baleia, D. Fernando reserva para si, porque era muito rendosa nessa época. D. Fernando casou com D.Leonor Teles, em Setembro de 1372, oferecendo-lhe como dote, várias Vilas e Terras de seu Senhorio, incluindo os seus direitos em Atouguia.

Foi durante o reinado de D. Fernando que se presume tivesse havido côrtes em Atouguia durante o mês de Setembro de 1375. Julgamos que a côrte real, nesse ano, se encontrava temporariamente aqui no Paço da Serra, a passar o verão, devido à frescura dos nossos ares marítimos e florestais dessa época, então muito aprazíveis. Nessas presumíveis côrtes teriam sido tratados assuntos relativos ao comércio marítimo e seus atributos, assim como a pesca, agricultura e outros. Nas côrtes gerais efectuadas em Santarém no ano seguinte, vai o rei D. Fernando sancionar por decreto real as ditas leis presumivelmente discutidas em Atouguia.

Durante o reinado de D. Fernando, o comércio marítimo internacional atinge um grande incremento nos nossos portos costeiros, principalmente em Lisboa e Porto que se tornam verdadeiros empórios comerciais.

D. Fernando, ele mesmo, se torna industrial armador, possuindo várias embarcações para comercializar com o estrangeiro.

Chanceler-Mór de D. Fernando, é o mesmo que serviu seu pai, o rei D. Pedro I, e talvez tivesse algum cargo no tempo de D. Afonso IV, pois nasceu nos fins do reinado de D. Dinis. Se chamava Álvaro Pais, homem muito sábio e arguto que tanto contribuiu para engrandecer esse desenvolvimento comercial-marítimo no seu tempo.

Devido ao volume intenso desse comércio marítimo, o calado das embarcações aumentava vertiginosamente em suas dimensões, exigindo portos com fundos mais pronunciados e seguros ancoradouros, para suas atracagens e acostagens de carga e descarga. Com as reformas provocadas por D. Dinis na agricultura e seu desenvolvimento posterior, os campos que eram incultos e florestados, foram em grande parte arroteados e lavrados anualmente, provocando uma grande erosão que se transportou para os estuários dos rios, que eram os antigos portos marítimos, como era o caso do porto de Atouguia, que imediatamente e em poucos anos, ficou incapaz para o trafego marítimo das embarcações de grande calado e envergadura, já então muito aumentadas.

O rei D. Fernando faleceu a 22 de Outubro de 1383. Com a sua morte, finda a dinastia Afonsina.



D. João I, 0 Mestre de Avis

Um grande movimento popular, exige que seja nomeado o Mestre de Avis o futuro rei de Portugal. Grande parte da fidalguia, não querendo perder seus privilégios e benesses, opõe-se tenazmente a essa nomeação. Nos fins do ano de 1383 e princípios de 1384, rebentou a revolução, pró e contra a sucessão da coroa, a favor de D. Beatriz, filha do rei falecido e da rainha D. Leonor Teles, casada com D. João, rei de Castela.

Muitos nobres do reino, pleitam a favor da velha rainha, e de sua filha D. Beatriz. A raia miúda luta a favor do Mestre de Avis. Algumas grandes cidades e vilas são a favor do Mestre. Lisboa, Porto, Évora, Santarém e outras; revoltam-se e aclamam-no rei de Portugal em Santarém.

A Vila de Atouguia não se pronuncia nem a favor nem contra. Pressionada pela guarnição do castelo de Óbidos, que era a de Castela, resolve ficar quieta até ver como ficam as coisas.

D. João I, é agora rei e Senhor de Portugal. Dôa a seu filho, o infante D. Fernando, o senhorio e porto de Atouguia e suas terras limítrofes. Também cede a D. Nuno Alvares Pereira, todos os direitos e que lhe pertenciam sobre a Vila de Atouguia. O porto de Atouguia encontra-se assoriado, devido ao grande desenvolvimento da agricultura processa campos existentes a montante deste.

Por ordem do rei D. João I, iniciam-se trabalhos de desassoriamento para recuperação do porto. Estes pouco resultam, continuando o mesmo a degradar-se em grande força.

D. João I, várias ocasiões habitou temporariamente o Paço da Serra.

No ano de 1393, reuniu aqui os estados, para prestar juramento de trégua, com o reino de Castela e dar despacho de agravamentos especiais dos vários conselhos em questão. Pela "Chrónica do Candestrabe", sabe-se que D. Nuno Alvares Pereira ali se deslocou para tratar com o seu rei assuntos de interesse nacional, vindo depois pernoitar na Vila de Atouguia. Depois da conquista de Ceuta a 21 de Agosto de 1415, três anos depois, encontrava-se o Infante D. Henrique em suas terras de Viseu, quando lhe chegou a notícia que os mouros se preparavam para cercar Ceuta e reconquistá-la aos Portugueses.

D. Henrique partiu de Viseu para o Paço da Serra a fim de com seu pai, o rei D. João. Quarenta léguas separavam estas duas povoações, que ele percorreu num dia e numa noite. A seguir parte para Lisboa e volta novamente ao Paço da Serra, fazendo este caminho em quinze horas. Tudo isto conta o cronista Azurara, contemporâneo dessa época.

D. João 1 nasceu a 14 de Agosto de 1357 e faleceu em igual dia de 1433.



D. Duarte e o porto de Atouguia

Depois da morte de D. João I, sobe ao trono de Portugal, o seu primogénito, o Infante D. Duarte, que em carta de 11 de Junho de 1438 faz sobre o porto de Atouguia (que já se encontra muito danificado) a seguinte alusão.

Vinham ao porto de Atouguia muitos navios que carregavam aí; vinho, sal e outras mercadorias. Havia também muitos barcos a pescar que dava à terra grande proveito. Mas agora que se encontrava assoreado não podem lá ir esses barcos. Por isso, D. Duarte, depois de seu pai ter feito obras grandiosas no porto, continuou a tentar recuperá-lo, levando a efeito vários trabalhos, conseguindo que algumas embarcações ai pudessem chegar. Como muitos barcos se perdiam devido às más condições do porto, D. Duarte, ordenou que se instalassem pilotos na ilha de Peniche, que por serem conhecedores e experientes, auxiliassem a navegação que demandasse o porto de Atouguia.

A faina piscatória, já se encontrava muito concentrada na ilha de Peniche, vai agora instalar-se totalmente lá, ficando toda a antiga baía de Atouguia entregue às aves migratórias, que se aproveitavam da muita comida que esses pântanos produziam em grandes quantidades. Durante poucos anos, mesmo esses pântanos vão desaparecendo dando lugar a um sapal coberto de juncos e outras plantas semi-aquáticas que os moradores de Atouguia e arredores, aproveitavam para apascentar seus gados. Foi assim durante muitos anos, correndo a ribeira de S. Domingos a esmo por essa imensa planície até chegar ao mar.

Só no último quartel do século XIX, um grande agricultor, de nome José Pinheiro, inicia o saneamento desses importantes campos que foram no passado a baía-porto de Atouguia durante muitos milénios. Forando ao estado de então o campo correspondente ao que tinha sido a lagoa dos Salgados, leva a efeito uma grande obra hidráulica-agrícola, que veio a resultar nos magníficos terrenos que são hoje a herdade dos Salgados. As propriedades confinantes com as margens do rio S. Domingos, também foram recuperadas pelos seus proprietários de então, que as acrescentaram às que já possuíam em seus limites e testadas.

D. Duarte faleceu em Tomar a 13 de Setembro de 1438.

Pela menoridade de seu filho, o príncipe D. Afonso, assume a regência do reino, o seu tio, o infante D. Pedro.

Este, no ano 1445, concede privilégio ao lugar da Baleia no termo de Atouguia, para 20 homens o povoarem isentos de direitos, fintas e talhas, e do serviço na vintena do mar. Carta do regente, Beja, 14 de Janeiro de 1445. O lugar da Baleia hoje já não existe, que foi absorvido pela Vila de Atouguia devido ao seu desenvolvimento posterior.

O cronista, Frei Francisco de Santa Maria, (frade de Alcobaça) diz que o determinativo da Baleia, ter-lhe-ia provindo do facto de ter acontecido dar à costa na praia da areia branca da Vila de Atouguia, uma baleia de grandes dimensões, no dia 13 de Fevereiro de 1526. O autor desta resenha histórica, não faz a menor ideia concreta onde se situava o dito lugar da Baleia, ao tempo do regente D. Pedro. No entanto arrisca que podia ter existido muito próximo da actual povoação, que ao ser por esta absorvido, lhe acrescentou o sobrenome de Atouguia da Baleia.

Analisando as duas versões, a do Infante D. Pedro, com data de 1445 e a do cronista Frei Francisco de Santa Maria com data 1526, verifica-se uma diferença de 81 anos antecedentes na versão de D. Pedro. O mercador Afonso Domingos "O Donzel" veio para a Vila de Atouguia, para caçar os respectivos cetáceos e seus afins em 1340. Isto prova que o porto de Atouguia era parco nesses espécimes. Assim, pensa-se que existiu junto à Vila um lugar chamado da Baleia. onde deu à costa uma grande baleia numa das muitas praias de areia branca que circundavam a baía-porto de Atouguia. A toponímia da Baleia adveio-lhe de várias causas relacionadas com a grande profusão de baleias que abundavam nestas paragens ao tempo da idade média. Também encontramos o porquê de Tauria, embora pouco explícita quanto à origem dessa toponímia.

Tauria, do latim "taurus", boi no nosso português ou touro, como lhe chamareis; existiam no estado selvagem em grande quantidade nas florestas circundantes da imensa lagoa de Tauria. Daí a razão do Brazão heráldico da Vila de Atouguia compor-se de um touro no seu escudo.



Instituição do Condado de Atouguia

D. Pedro, o infante regente, faleceu na batalha de Alfarrobeira em 20 de Maio de 1449, passando a governação do reino para seu sobrinho D. Afonso V. Este rei, concede à fidalguia muitas mercês. Entre os muitos distinguidos, conta-se D. Álvaro Gonçalves de Ataíde, que pelos bons serviços prestados em favor do reino de Portugal, D. Afonso V, concede-lhe o titulo de 1º Conde da Vila de Atouguia, com doação e jurisdição, por carta de 17 de Dezembro de 1448.

D. Afonso V, faleceu em 28 de Agosto de 1481.

Durante o reinado de seu filho, D. João II, pouco ou nada se sabe sobre Atouguia.



O reinado de D. Manuel I

A seguir ao ano de 1495, sobe ao trono de Portugal o rei D. Manuel I, titulado de Venturoso, que ordena reformas e ampliações no Paço da Serra, conforme demonstra no seu estilo patente na frontaria deste, ainda hoje existente. No ano de 1498, este rei desloca-se ao reino de Castela, permanecendo lá durante algum tempo, entregando a regência de Portugal a sua irmã, a rainha viúva D. Leonor. Foi esta bondosa senhora que a 15 de Agosto desse mesmo ano, decretou a criação das misericórdias, e a transformação dos antigos estabelecimentos de assistência e protecção civil; tais como: confrarias e gafarias, em novas misericórdias.

Muitas cidades e vilas possuíam seus estabelecimentos hospitalares, sendo a Vila de Atouguia uma delas.

Em 1507, este rei enviou à Vila de Atouguia como seu desembargador o Doutor Álvaro Fernandes, que se instalou no Paço da Serra, a fim de investigar e arrolar em tombo próprio, as propriedades e rendimentos pertencentes à Irmandade da Gafaria, que lhe haviam sido doadas, quer pelos reis passados, quer por vários benfeitores.

O hospital-gafaria, e a respectiva capela-anexa, encontravam-se nesta data, muito danificados, transformados num pardieiro, pois há muito não recebia gafeirosos, devido ao seu abandono, por parte da má administração e abusiva apropriação de bens e rendimentos, a ela destinados por seus doadores que agora estavam a ser delapidados em proveito de seus administradores. O documento comprovativo desta acção, encontra-se na Torre do Tombo, existindo uma cópia muito fiel na posse de pessoa de Atouguia da Baleia.

Essa cópia foi tirada nos fins do século XIX pelo senhor Paulo Camiler, eminente cidadão desta vila, que a ofereceu ao Sr. Padre Francisco Barata, então prior da paróquia de S. Leonardo e presidente da Irmandade da Misericórdia de Atouguia da Baleia. Estudando atentamente esse documento, muitas ilações se podem obter como era civil e geograficamente a Vila de Atouguia, nessa data. O mesmo documento, no seu compromisso final determina que no futuro os rendimentos das propriedades pertencentes à dita gafaria, sejam entregues aos responsáveis da Câmara da Vila de Atouguia, com a finalidade de serem gastos na reconstrução da gafaria e sua capela com todos os acessórios e paramentos necessários para na mesma se celebrarem missas de sufrágio pelas almas dos gafos nela falecidos. Foi durante a regência da rainha D. Leonor que decretou a transformação das gafarias em misericórdias, não nos custa aceitar que a nossa misericórdia existe a partir dessa data.

Durante o seu reinado, D. Manuel concedeu e reformou muitos forais. Entre eles deu a Peniche o seu primeiro foral, embora ainda dependente da administração da Câmara de Atouguia. Também dotou esta Vila com um novo foral nessa mesma data, 1 de Junho de 1510.

Recebeu nessa altura, o seu magnífico pelourinho de estilo Manuelino, que mais tarde foi mutilado por ordem do Marquês de Pombal, por nele conter o brazão de armas dos condes de Atouguia "Os Ataídes".



Final da Dinastia de Avis

No reinado de D. João III, cerca de 1521-1557, na região da Vila de Atouguia, produziam-se grandes quantidades de laranjas, cidras, pêras, uvas brancas e figos. Além de alhos, cebolas, melões e hortaliças. Assim podemos avaliar como a agricultura nas terras de Atouguia se desenvolveu e progrediu em relação ao seu belo porto marítimo que neste reinado já se não fala dele. Em sentido contrário, o porto de Peniche obteve durante este reinado um desenvolvimento de toda a ordem, comercial e piscatória.

Devido a esse grande incremento laboral atrai às suas costas, todo o género de pirataria. Por essa razão, o rei D. João III, inicia a construção das futuras fortificações de toda a zona de Peniche, mandado edificar o seu primeiro baluarte do forte da actual cidade do mesmo nome. Nos curtos reinados de D. Sebastião e de seu tio-avô, o Cardeal D. Henrique, nada de importante se sabe que tenha acontecido na então decadente Vila de Atouguia. O seu donatário nesta data é o Senhor 3º Conde, D. Luís de Ataíde durante este reinado Vice-Rei da índia onde se cobre de glória. Talvez por isso não tenha sobrado nenhuma para dar à sua velhinha Vila de Atouguia.

O conde D. Luís de Ataíde, faleceu na índia no ano de 1581, não deixando descendente directo, ao condado de Atouguia.



Atouguia, no tempo dos Filipes

Com a subida do rei Filipe II de Espanha, ao trono de Portugal, a Vila de Atouguia ainda se degrada mais. Por carta deste rei em 1587, concede a João Gonçalves de Ataíde o condado de Atouguia e o senhorio de Peniche e Berlengas, como mercê dos bons serviços prestados à causa filipina. Este senhor que por parte de sua avó, descendia da linhagem da casa dos Ataídes, vai dedicar todo o seu esforço e abnegação à futura Vila de Peniche, então em franca e progressiva ascendência em todos os seus domínios populacional, comercial e marítima.

O conde D. João de Ataíde, é encarregado de construir a maior parte das muralhas da praça forte de Peniche, criando assim o grande baluarte defensivo que veio a ser no futuro e durante muitos anos, inexpugnável, quase invencível. O concelho de Atouguia possuía ao tempo cerca de 300 moradores, enquanto Peniche já tem à volta de 500. Em breve vai separar-se definitivamente de Atouguia passando a ser concelho; o que veio a acontecer a 12 de Novembro de 1609.

Ficou a vila de Atouguia, só com duas freguesias; ela mesmo com seus vizinhos a Serra de El-Rei agora levada à categoria de Freguesia, sendo seu orago S. Sebastião. A vila tinha dois juizes ordinários, e mais oficiais da Câmara e justiças. O Conde de Atouguia D. João de Ataíde, consegue do rei Filipe uma comparticipação financeira para realizar melhoramentos no Paço da Serra. Também a Câmara de Atouguia conseguiu ver satisfeito o seu pedido de autorização de lançar uma sisa a fim de obter 20.000 réis anuais, para pagamento de um médico de partido que muita falta vinha fazendo à sua população.

Com a morte de D. João de Ataíde, o seu filho primogénito, D. Luís de Ataíde, herda todos os títulos e senhorios que tinham sido de seu pai. Em 1636 recebe ordem de Filipe IV para reforçar e armar todos as defesas existentes em seus senhorios, facto que cumpriu exemplarmente. Quanto ao condado de Atouguia, pouco rendimento proporciona ao seu titular, sendo apenas de 800 ducados anuais, por volta de 1633.

Também durante o reinado de Filipe IV, existem no pais, muitos cirurgiões-barbeiros e curandeiros que praticavam medicina a esmo sem escrúpulos de qualquer espécie; o que levou este monarca a publicar em 12 de Dezembro de 1631, o regimento de cirurgião-mór. Sendo nomeado para esse alto cargo o doutor Francisco Milheiro. Este clínico tinha como missão percorrer o país examinando e autorizando, esses praticantes da então curandice, concedendo-lhes o respectivo alvará.

Nesse tempo existia em Lisboa um famoso curandeiro natural de Atouguia, chamado António de Almeida, que tinha a grande virtude de curar várias doenças, tais pedra, dores de estômago, males vitorinos e outras maleitas, tidas como incuráveis. Este famoso curandeiro também foi examinado e autorizado pelo doutor Milheiro a exercer oficialmente a sua famosa arte de curandeiro.


A Atouguia e a restauração de Portugal

Com a restauração de Portugal em 1640, e a nomeação do duque de Bragança para seu rei com o título de D. João IV, este monarca consagra por decreto real de 1646, o seu reino a Nossa Senhora da Conceição, assim como todas as cidades ou vilas que o desejassem fazer.

Foi assim, que segundo o mesmo decreto a Vila de Atouguia se consagrou em 1656, a Nossa Senhora, segundo o padrão ainda hoje existente no muro do adro da igreja de S. Leonardo, do lado sul, (atrás) voltado para a antiga entrada da vila como determinava o respectivo decreto real assim se fizesse. Dos 40 conjurados que tornaram possível a restauração de Portugal, dois deles ainda muito jovens eram filhos do 5º Conde de Atouguia, D. Luís de Ataíde e sua esposa, D. Filipa de Vilhena. Eram eles: D. Jerónimo de Ataíde e D. Francisco Coutinho. Assim que a duquesa, D. Luisa de Gusmão assumiu o seu lugar de rainha de Portugal, nomeou o moço D. Jerónimo de Ataíde, para camareiro-mór e aio de seu filho mais velho, o futuro rei D. Afonso VI.

Nas primeiras cortes que se realizaram logo a seguir à restauração da independência em 1641, as quais se compunham de 18 bancos, o concelho de Atouguia ainda ocupou o banco numero 16,juntamente com as Vilas de Monsarraz e Vila Viçosa. Com a morte de D. João IV em fins do ano 1656, e pela menoridade do herdeiro do trono o príncipe D. Afonso, sua mãe a rainha D. Luisa de Gusmão, assume a regência da Nação. Várias intrigas e artimanhas levam à destituição da rainha e à entrega do reino ao muito jovem e pouco atinado rei D. Afonso VI.

Na orquestração de todo esse processo esteve a magistral direcção da insigne batuta do Conde de Castelo Melhor, secundado pelo seu fiel amigo e confidente, D. Jerónimo de Ataíde, conde de Atouguia. Não durou muito a realidade desta famosa e eximia parelha de tramoiantes, que em pouco tempo se desentenderam, afastando-se o conde de Atouguia para as suas muitas outras obrigações.

No ano de 1668, na ordem numérica dos 91 concelhos administrativos que o pais possuía a Vila de Atouguia tinha o numero 82. Por esta descrição histórica, podemos avaliar quanto a Vila de Atouguia se degradou até então e depois ainda mais até aos nossos dias. Devido à sua má governação, o rei D. Afonso VI, é deposto, e substituído na regência do reino, por seu irmão, o príncipe D. Pedro, que depois da morte do primeiro é aclamado rei de Portugal.

Foi durante a regência de D. Pedro que a então decadente Vila de Atouguia construiu em 1675 o seu novo Hospital e Igreja da Misericórdia, em substituição do velho hospital da Gafaria, já muito degradado, depois da sua reedificação ordenada pelo rei D. Manuel I em 1507. Este hospital existe ainda hoje, assim como a sua igreja, tal e qual como foram construídos na sua primitiva traça. Estes foram ao tempo construídos numa zona da Vila, que não era ainda habitada, ficando bastante afastada desta, vindo depois a construir-se moradias nas suas proximidades; como hoje se comprova.

No ano de 1676, a Câmara de Atouguia requereu ao rei, que a feira de S. Leonardo, no dia 6 de Novembro, passasse a ser franca, o que lhe foi concedido. Foi nos primeiros anos do reinado de D. Pedro II, mais propriamente a 19 de Maio de 1693 que segundo documentos verídicos aconteceu o milagre sobejamente relatado com fotografias da imagem de Nossa Senhora da Conceição, descritas num pequeno-grande livro, escrito pelo insigne e saudoso pároco que foi desta Vila, durante o tempo de 1906 a 1923 ano que se finou, por nossa infelicidade.

O titulo do livro é: "Duas palavras acerca dum monumento esquecido". O seu autor, foi o Padre José Nunes Ferreira Tavares, que o escreveu em 1908. Conta o livro, que as expensas da Irmandade da Misericórdia e dos devotos de então, com a grande contribuição da rainha de Portugal D. Isabel Sofia, se deu início à construção da linda e majestosa igreja de Nossa Senhora, a 10 de Maio de 1694, ficando concluída a 9 de Abril de 1698. Muitos romeiros, de várias povoações aqui se deslocavam a rogar a protecção da Imaculada Conceição e a retribuir suas dádivas prometidas. Entre as muitas povoações, se contavam as de Santarém, Mafra, Dois. Portos, Santana da Carnota, etc. que aqui vinham anualmente.

Com este acontecimento, a Vila de Atouguia recupera um pouco do seu prestigioso passado. Ele mantém-se durante o longo reinado de D. João V e parte do reinado de seu filho, D. José I.



O atentado contra D. José I

A 3 de Setembro de 1758 deu-se o atentado contra D. José I. São acusados deste regicídio falhado as duas casas fidalgas de grande prestígio nacional. Távoras e Ataídes; que são condenados e executados no patíbulo em Belém, no dia 18 de Janeiro de 1759. D. Jerónimo de Ataíde ll. Conde de Atouguia foi um deles. Assim findou para sempre o condado desta Vila de Atouguia.

Em 1780, já no reinado de D. Maria I, é concedida à Vila de Atouguia da Balêa, (é a primeira vez que se lê, da Balêa) a sua primeira escola oficial de ler e escrever, paga a expensas da Coroa. A ministração desse ensino é feito por elementos afectos à ordem religiosa dos "Observantes da Província dos Algarves".

Em fins de Novembro de 1807, Portugal é invadido pelos exércitos Napoleónicos comandados pelo General Junot. Nos primeiros dias de Dezembro desse mesmo ano, chegam a Peniche grandes contingentes militares Franceses da arma de infantaria, a fim de lá se aquartelarem na sua praça forte. Durante as invasões francesas o nosso pais é fortemente abalado por essas ocupações. Com grandes forças napoleónicas aquarteladas na praça militar de Peniche, a vizinha Atouguia é bastante mal tratada pelo abuso da soldadesca sem escrúpulo e desvairada, que muitos danos lhe fizeram. Foi assim, que nos roubaram o altar-mór da igreja de Nossa Senhora e também o seu belo sacrário, que hoje se encontram expostos no museu do Louvre em Paris.

Depois de seis anos de lutas e ocupação francesa as terras da Vila de Atouguia ficam numa penúria, assim como todo o nosso país.



Fim do Concelho de Atouguia

Depois da revolução de 1820, o nosso pais entra numa guerra civil de medonhas proporções, que muito mutilam suas povoações e gentes. A Vila de Atouguia sofre por tabela o resultado dessa guerra. Mesmo assim ainda continuamos com assento nas decisões do reino.

Por volta do ano de 1828, ainda os procuradores da Vila de Atouguia ocuparam nas cortes de então, o seu banco numero 16 juntamente com Vila Viçosa, Monsarraz, Penela, etc. Em 1832 Mousinho da Silveira preconiza uma nova reforma Administrativa e novo ordenamento civil do País. No ano de 1834, são extintas a grande maioria das ordens religiosas. Com essa extinção foram atingidos os conventos de: Jesus, em Peniche, o do Val Bem Feito, e o de S. Bernardino, que foram vendidos em oferta publica. O ano de 1836, é o ano fatídico para a Vila de Atouguia da Baleia.

Por proposta do Ministro Passos Manuel e decreto da Rainha D. Maria II em 6 de Novembro de 1836, manda o mesmo que seja extinto o concelho de Atouguia e este incorporado no concelho de Peniche, mantendo-se a mesma como freguesia, cujos limites de sua jurisdição iam até junto das muralhas que circundam a Vila de Peniche. A área do concelho de Peniche ficou só limitado dentro da cintura muralhada até há poucos anos atrás.(1836)

Só a partir dos anos cinquenta alargou a sua jurisdição até ao rio de S. Domingos (lagoa).



1º.Conde de Atouguia

D. Afonso V concedeu o título de 1º Conde de Atouguia, com a doação e jurisdição desta Vila, por carta de 17/12/1448, a D. Álvaro Gonçalves de Ataíde. Era esforçado militar. Em 1445 armara uma das 26 caravelas que se destinaram à Guiné, sendo capitão dela, João de Castilho. Juntamente com uma caravela de Picanço e outra de Tavira esteve em Palma e na Gameira, realizando ali proezas várias com a ajuda de dois capitães, Bruco e Piste que ali residiam e se tornaram servidores do Infante. D. Álvaro de Ataíde que era natural do Algarve, apresentou ao rei D. João II, nas cortes de 1490 em Évora, as dificuldades que a Vila de Lagos tinha em obter o sal necessário para salgar seu pescado. O rei D. João II, concedeu-lhe a casa do sal, pela quantia de doze mil reis anuais.

Foi bastante longa a vida deste conde, vindo a falecer em 1499. Encontra-se sepultado num túmulo de pedra, na capela-mor da igreja de S. Leonardo em Atouguia da Baleia.



2º Conde de Atouguia

O 2º Conde de Atouguia foi o filho primogénito do 1º Conde; de nome D. Martinho de Ataíde, que tomou conta do condado por morte de seu pai em 1499. Em sua vida foi capitão-mor do reino do Algarve, de onde era natural e Alcaide-mor de Caminha. Também foi longa a vida deste conde. Por morte do 2º Conde de Atouguia, cabia ao seu filho primogénito, D. Afonso, herdar o condado. Só que este renunciou ao cargo, preferindo professar frade menor no convento de S. Bernardino para o qual sua mãe, Dona Guiomar de Castro, muito contribuía para sua manutenção. Depois de ter feito sua religiosidade de muitos anos na província da Piedade, voltou por sua morte para o seu convento de S. Bernardino, onde se encontra sepultado juntamente com outros familiares de apelido Ataíde. Sua mãe, com autorização da coroa entregou o padroado de S. Leonardo aos frades Lóios de Xabregas, os quais logo substituíram o prior colado, por vigário, porque lhes ficava mais económico seu sustento.

Estes alcançaram da Sé Apostólica, autorização para reedificarem o colégio de Coimbra que tinha sido demolido pela cheia do rio Mondego anos antes. Depois do mesmo erigido não foi possível sustentá-lo por falta de meios financeiros do padroado de S. Leonardo



3º Conde de Atouguia

O 3º Conde de Atouguia foi D. Luís de Ataíde, um dos mais brilhantes e ilustres Vice-rei da índia. Nasceu em 1517, e faleceu em Goa a 10 de Março de 1581. Era filho segundo de D. Afonso de Ataíde e de D. Maria Magalhães e bisneto do 2º Conde de Atouguia D. Martinho de Ataíde, de quem herdou o título. Tendo feito as suas primeiras armas em África, passou ao Oriente onde participou na expedição de D. Estevão da Gama ao Mar Roxo, sendo armado cavaleiro por ele, na Igreja de S. Catarina do Monte Sinai. De regresso à metrópole, foi enviado à corte de Carlos V, tomando parte na expedição do Imperador contra os Luteranos, onde se destinguiu. Regressado a Portugal, manteve-se estranho às lutas políticas que depois da morte de D. João III, se travaram a respeito da regência. Quando D. Sebastião tomou conta do governo do reino, foi D. Luís de Ataíde, nomeado Vice-rei da Índia, em Março de 1568. Partiu a 7 de Abril e chegou a Goa a 10 de Setembro desse mesmo ano.

Tratou logo de introduzir a disciplina nos serviços e de manter o perfeito domínio do mar, para o que fez os maiores sacrifícios a fim de organizar esquadras que protegessem o comércio português e mantivessem rigorosamente a tributação sobre a navegação indígena. Fez sufocar a revolta de Baticala por uma frota do comando de Afonso Pereira de Lacerda. Da polícia da Costa do Malabar encarregou Martins Afonso de Miranda, com uma esquadra de vinte navios; mandou dar caça aos corsários; reprimir excessos de malabares; atacar as forças do Çamorim, por Diogo de Meneses. Para garantir a segurança da navegação, conquistou, em 1569, as praças de Omar e de Bracelar, cujos portos eram centros de actividades de piratas. Graças à sua energia, os negócios da índia mudaram de feição. Os príncipes indígenas resolveram então aliar-se para expulsar de vez os portugueses.

D. Luís de Ataíde, cercado em Goa por um numeroso exército do Hidalcão, conseguiu enviar socorros a Chaúl e operar sortidas amiudadas.

O Nizam Melek, depois dum ataque geral a Chaúl, (29 de Junho de 1571) desanimou e pediu a paz, que se concluiu a 24 de Julho. O Hidalcão, depois levantou o cerco a Goa; D. Luís de Ataíde demorou as negociações da paz, deixando ao seu sucessor o trabalho de as concluir e retirou-se para a metrópole a 6 de Janeiro de 1572, terminado o tempo do seu governo. Chegou ao Tejo a 3 de Julho do mesmo ano, com o prestigio que lhe advinha não só dos seus actos de chefe guerreiro, mas da sua excelente administração.

Entrou solenemente em Lisboa, sendo conduzido debaixo de pálio desde a Sé até à igreja de S. Domingos e à direita do Rei.

Com todos os fidalgos ajuizados e experimentados capitães, reprovou os projectos marroquinos do monarca e convidado por este para comandar a expedição, escusou-se. Foi então de novo nomeado Vice-rei da Índia, para onde partiu a 16 de Outubro de 1577 só com três naus. Chegou a Goa a 31 de Agosto de 1578, depois de ter invernado em Moçambique. Tomou posse do governo, que lhe foi entregue por Diogo de Meneses; negociou a paz com o Hidalcão, que havia quebrado; assegurou o domínio nos pontos em que havia pronúncios de agitação; e refreou os excessos da alçada eclesiástica, que provocavam a emigração dos indígenas bem como os do Santo Oficio. Entretanto iam chegando a Goa, sucessivamente as noticias da derrota de Alcácer-Quibir, da morte do Cardeal-rei, da invasão e conquista de Portugal pelas tropas de Filipe II de Espanha. Disse-se que ao espírito de D. Luís ocorreu a ideia de organizar na índia as forças que lhe fosse possível congregar e vir com elas auxiliar o prior do Crato nas suas pretensões à Coroa de Portugal. Se teve tais pensamentos, a morte em breve lhos cortou; porque faleceu pouco depois de se haver recebido no Oriente a notícia da perda da independência.

Foi depositado o seu cadáver na capela-mor da igreja dos Reis Magos, em Goa e depois transladado para o convento do Bom-Jesus na Vila de Peniche, de que era donatário e senhor; ficando num belo túmulo na capela-mor do lado do evangelho. Depois em 1834, tendo o convento caído em ruínas, foram os despojos transferidos para a igreja de Nossa Senhora da Ajuda. Hoje encontram-se na igreja da Misericórdia.

Sucedeu-lhe no governo da Índia, D. António de Noronha.

Como não deixou descendência masculina, a casa e o título vieram a passar pela linha feminina a D. João Gonçalves de Ataíde.


4º Conde de Atouguia

O 4º Conde de Atouguia foi D. João Gonçalves de Ataíde, neto de Zimão Gonçalves da Câmara, capitão donatário da Madeira e de sua mulher, D. Isabel da Silva, filha de D. João de Ataíde, herdeiro da casa de Atouguia. Filipe II de Espanha por cartada 11 de Dezembro de 1587, concedeu-lhe, de jure e herdade o titulo de 4º Conde de Atouguia e o senhorio das ilhas das Berlengas e do Baleal. Casou com Dona Maria de Castro, filha e herdeira de Martins Afonso de Miranda, camareiro-mór do Cardeal D. Henrique. Foi o conde D. João de Ataíde, muito apaziguado pelo rei Filipe II de Espanha, a quem sempre serviu com muito esmero e dedicação, recebendo em troca muitas mercês e honrarias.

Cerca de vinte anos depois de ter recebido a doação e senhorio de Peniche, consegue do poder real a criação do seu concelho, em 12 de Novembro de 1609, separando-o da Vila de Atouguia. Para que tal facto se desse, o conde apresentou a seguinte razão:

"Para ser vila, Peniche tinha mais qualidades, rendimentos e povo que Atouguia, que não chegava a 150 vizinhos e que todas as mais vilas que havia nesta costa de Sines a Buarcos".

Peniche dispunha já de um excelente porto, bom local de vigilância contra os piratas e de uma população de 900 para 1 000 vizinhos. Passava a ter juizes vereadores para a defesa da costa e protecção das naus de pesca e de comércio que fugiam à acção dos corsários. Se continuasse a defender judicialmente Atouguia, não era possível ao povo apresentar demandas e obter sentenças, pois na época do inverno, "fazia-se da parte do sul lagoa tão grande" que Peniche quase se transformava numa ilha. Tais razões justificaram o novo foro que lhe concedia forca, pelourinho, bandeira e as insígnias das outras Vilas. Data de então o surto de Peniche, que se tornou um grande porto secundário, além de constituir uma defesa militar de Lisboa.

Foi durante o tempo em que D. João de Ataíde foi Conde de Atouguia, senhor de Peniche, que se construíram a maior parte das suas muralhas. Também conseguiu do rei Filipe II, comparticipação para fazer obras no Paço da Serra, onde residia quando se encontrava por estes seus senhorios de Atouguia e Peniche.



5º Conde de Atouguia

O 5º Conde foi D. Luís de Ataíde, filho primogénito do antecedente, cuja casa e titulo herdou. Casou com D. Filipa de Vilhena, filha de D. Jerónimo Coutinho, e de sua mulher D. Luisa de Faro. A condessa quando morreu deixou-lhe dois filhos. D. Jerónimo de Ataíde e D. Francisco Coutinho. Durante a governação Filipina do reino de Portugal, foi este pais muito sobrecarregado de impostos. Principalmente nos postos fluviais e marítimos. Acontecendo ao porto de Peniche ter de pagar bastantes impostos que o 5º Conde de Atouguia e senhor de Peniche, reclamou ao governo o seu direito em pertencerem-lhe. Esse direito foi-lhe negado pelo governo Filipino, que muito desagradou ao Conde e seus familiares.

Em Julho de 1636, recebeu o Conde ordens para fortalecer a zona do porto e costa de Peniche devido a rumores de uma possível invasão dos inimigos da Espanha. Toda a nobreza recebeu igual ordem, só o Conde de Vimioso e o de Atouguia cumpriram integralmente a dita ordem; apesar do muito ódio que já possuíam relativo aos Filipes e ao seu governo.



6º Conde de Atouguia

O 6º Conde de Atouguia, foi D. Jerónimo de Ataíde, que faleceu a 16 de Agosto de 1665; e era primogénito do antecedente, cuja casa e titulo herdou. Foi um dos quarenta conspiradores de 1640 e com seu irmão armado cavaleiro por sua mãe na própria madrugada de 1 de Dezembro, para ir combater pela independência de Portugal. Após a independência foi chamado ao Paço por D. Luisa de Gusmão e dela recebeu o cargo de camareiro-mór e de aio do príncipe D. Afonso, mais tarde rei de Portugal. O conde foi seu protector durante alguns anos de sua menoridade.

Era fidalgo da Casa Real, governador da Praça de Peniche, e das armas de Trás-os-Montes e do Alentejo; capitão-general da Armada real; Concelheiro de Estado; Presidente da Junta de Comércio, etc. Casou duas vezes; a primeira por volta de 1640, com D. Maria de Castro, filha dos segundos condes de Penaguião; a segunda vez, com Dona Leonor de Menezes, filha e herdeira de D. Fernando de Menezes, e de sua mulher, Dona Jerónima de Toledo, filha dos segundos condes de vila Franca, havendo descendência de ambos os matrimónios.

O Conde D. Jerónimo de Ataíde, foi o segundo Governador e Capitão-general do Brasil, (1654-1657). Foi sepultado na capela-mor da igreja de Xabregas, que era seu padroado.



7º e 8º Conde de Atouguia

O 7º Conde de Atouguia, foi D. Manuel Luís de Ataíde, faleceu a 12 de Outubro de 1665, sendo filho do primeiro casamento do 6º Conde de Atouguia. Era fidalgo da casa real e tenente-general de cavalaria do Alentejo. Casou com D. Vitória de Bourbon. O conde D. Manuel Luís, ficou gravemente ferido na batalha de Montes Claros, no meio de uma brilhante carga da sua cavalaria, que se portou sempre com a maior valentia, praticando prodígios de heroicidade. Não deixou descendência.

Um meio-irmão do 7º conde, foi o 8º conde de Atouguia, filho do segundo casamento do 6º Conde, de nome D. Luís Peregrino de Ataíde que herdou toda a casa e o título de seu meio-irmão. Casou com D. Margarida de Vilhena, filha dos terceiros Condes de Sabugal, meirinho-mór do reino e já viuva do conde de Miranda, Diogo Lopes de Sousa. Foi morto, por assassínio, na noite de 6 de Outubro de 1689.



9º e l0º Conde de Atouguia

Foi o 9º Conde de Atouguia, D. Jerónimo Casimiro de Ataíde, falecido a 30 de Novembro de 1720, sendo filho do 8º conde de Atouguia a quem sucedeu na casa e nos títulos. Casou a 12 de Junho de 1694 com D. Mariana Teresa de Távora, filha dos terceiros Marqueses de Távora. Houve descendência.

O 10º Conde de Atouguia foi D. Luís Peregrino de Ataíde, que nasceu a 16 de Outubro de 1700 e faleceu em 1758, sendo filho do antecedente de quem herdou a casa, senhorios e titulo. Foi fidalgo da casa real; governador-capitão-general do Algarve; Vice-rei do Brasil, de 1749 a 1755, e pertenceu ao conselho de D. João V.

Casou a 30 de Janeiro de 1720 com D. Clara de Assis Mascarenhas, filha de D. Fernando Mascarenhas, conde dos Óbidos, meirinho-mor; e de sua mulher, a condessa D. Brites de Mascarenhas. Tiveram vários filhos.

Foi durante o seu Vice-reinado do Brasil que Portugal cedeu à Espanha os seus direitos sobre a margem esquerda do Rio da Prata.



11º e último Conde de Atouguia

Foi o 11º Conde de Atouguia, D. Jerónimo de Ataíde, que nasceu a 14 de Julho de 1721 e faleceu no cadafalso a 18 de Janeiro de 1759. Era filho do 10º conde de Atouguia, cuja casa e padroados, comendas, senhorio e título herdou. Casou com D. Mariana Bernarda de Távora, filha dos terceiros marqueses de Távora. Acusado de cumplicidade no crime de atentado contra a vida do rei D. José I, foi com toda a família de sua mulher, supliciado em Belém. Foi preso com os outros acusados no Pátio dos Bichos e só dali saiu para o patíbulo.

Os seus bens foram confiscados, a sua casa demolida, picado ou raspado o seu brazão de armas, onde quer que estivesse e salgado o chão onde estava edificada a casa. O brazão de armas usado por estes condes desde o primeiro ao último, é como se descreve, embora se desconheça o respectivo alvará de concessão: de azul, com quatro bandas de prata, coroa de conde, timbre: uma onça saltante, banda de nove peças de azul e prata, lampassada de vermelho.

A representação destes condes encontra-se hoje na casa dos condes da Ribeira Grande, embora tenha sido extinto aquele condado.